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Terça-feira, 17 de maio de 2022

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entrevista da semana

Presidente da SBN cobra da União mais investimentos em pesquisas científicas

Foto: Reprodução / Ilustração

Nematoides - formas de vida microscópicas que geram perdas econômicas de proporções gigantescas na agricultura e na área da Saúde

Nematoides - formas de vida microscópicas que geram perdas econômicas de proporções gigantescas na agricultura e na área da Saúde

“Investimentos nos cursos acadêmicos, em produção científica, em laboratórios, é isto que precisamos com urgência, e o governo federal tem a obrigação de garantir mais recursos para o desenvolvimento dos estudos na área da nematologia, pois a economia brasileira perde bilhões de dólares a cada ano pela falta de pesquisa; e não são só os trabalhadores do campo que sofrem com essas perdas, são todos os brasileiros”. O alerta foi feito pelo presidente da Sociedade Brasileira de Nematologia, Ricardo Moreira de Sousa, em entrevista ao Agro Olhar.

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Contudo, antes de continuar, é bom familiarizar o público com este termo desconhecido de boa parte da população. A nematologia é uma especialidade científica que trata dos nematóides, animais invertebrados, em geral microscópicos, conhecidos pela população comumente como ‘vermes’; estes ocorrem em abundância na natureza, embora passem despercebidos – justamente por causa de seu tamanho, e atacam os organismos animais e vegetais. Importantes elos da cadeia alimentar são, por vezes, prejudiciais à saúde do homem e a agricultura.

No caso dos homens, são os Nematóides zooparasitas que causam preocupação. De acordo com estudos, um número apreciável de espécies pode parasitar e causar sérios problemas à saúde do homem e de diferentes animais domésticos por ele criados com fins comerciais ou simplesmente como animais de estimação. No caso da espécie humana, cerca de 70 espécies já foram relatadas como parasitas. Podem ser citadas Ancylostoma duodenale e Necator americanus, Enterobius vermicularis, Trichuris trichiura e Strongyloides stercoralis (intestino), Trichinella spiralis (musculatura), Wuchereria bancrofti (sistema linfático, causando a conhecida elefantíase), Onchocerca volvulus e Loa loa (doenças nos olhos).

“A Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN) busca atender tanto demandas tanto das pessoas ligadas profissionalmente à especialidade (nematologistas), como aos demais interessados na área de fitossanidade”, destaca Ricardo de Sousa.

Explicado o mais amplo sentido de ‘nematóides’, preocupação que por vezes chega a parecer obsessiva por parte dos nematologistas, o presidente da SBN fala sobre outros assuntos intrínsecos à área, como a produção científica, os estudos de campo, a relação com o meio ambiente.

Confira a seguir a entrevista com presidente da Sociedade Brasileira de Nematologia.

Agro Olhar – Os nematóides causam sérios prejuízos a lavouras que são de suma importância para a economia brasileira, como soja e milho. Quais são os métodos de controle usados para mitigar o efeito das doenças provocadas por estes ‘vermes’?

Ricardo Moreira de Sousa – Os nematóides assumem grande importância econômica em virtude dos sérios prejuízos causados a diversas plantas e, indiretamente, ao produtor, pela redução dos lucros. Os nematóides fitoparasitas prejudicam as plantas pela ação nociva sobre o sistema radicular que, por sua vez, afeta a absorção e a translocação de nutrientes, alterando a fisiologia da planta. Esses organismos também podem predispor a planta a doenças e a estresses ambientais ou atuarem como transmissores de outros patógenos.

As primeiras medidas de controle estão relacionadas à produção ou à aquisição de mudas livres de nematóides parasitas e ao plantio em áreas isentas dos patógenos. Na implantação de viveiros e de observação de áreas de plantio, é importante a realização de análise nematológica do solo para a identificação das espécies incidentes. Caso seja detectada a presença de nematóides prejudiciais à cultura no local de instalação do viveiro, recomenda-se, a substituição da área, ou o emprego de rotação de cultura com espécies não hospedeiras, por um período mínimo de dois anos (dependendo da cultura) ou, ainda, a desinfecção do solo com produto fumigante, em pré-plantio.

Uma observação a se fazer é que o controle químico mediante o uso de nematicidas é anti-econômico e pouco efetivo. Em excesso, esses produtos são extremamente tóxicos ao homem e ao meio ambiente. Até o momento, não se dispõe de nematicidas registrados para muitas culturas no Brasil. Sabe-se, contudo, que os custos elevados das aplicações têm desestimulado a utilização de muitos produtos.

Agro Olhar – A maioria das hortaliças é suscetível ao ataque de nematóides. Como funciona o controle biológico usado neste caso?

Ricardo Moreira de Sousa – Hortaliças como tomate, berinjela, batata, alface, pimentão, pepino e cenoura podem sofrer sérios prejuízos econômicos, dependendo da quantidade desses parasitos no solo e das condições ambientais favoráveis, principalmente temperaturas altas, solos arenosos e cultivo contínuo de plantas hospedeiras. Uma alternativa aos tradicionais métodos de controle de nematóides é o controle biológico. É um princípio da natureza, em que as populações dos seres vivos são reguladas por outros seres vivos: os agentes de controle biológico. As pesquisas neste campo estão bastante avançadas em algumas instituições, encontrando-se, porém, de forma ainda incipiente, alguns produtos comerciais destinados á horticultura. Os principais organismos para esse fim são os fungos e as bactérias. Eles apresentam segurança no manuseio e ao meio ambiente, pois só atuam sobre os nematóides. Os bionematicidas ou nematicidas microbianos são usados como um nematicida tradicional. Eles são aplicados, normalmente, no solo, e o principio ativo, ou seja, o fungo ou a bactéria ao entrar em contato com o nematóide causa uma doença que o leva à morte.

Agro Olhar – Existem outros métodos de controle desses parasitas?

Ricardo Moreira de Sousa – Sim. Temos os métodos tradicionais, destinados a locais com altas infestações, onde a utilização dos bionematicidas pode não ser prontamente eficaz. Os produtos disponíveis são á base de fungos dos gêneros Paecilomyces e Arthrobotrys e rizobactérias (bactérias que vivem nas raízes). Os dois primeiros foram muito estudados e atuam sobre juvenis (larvas) e ovos do nematóide, respectivamente. As rizobactérias são organismos que induzem resistência sistêmica da planta aos nematóides e também liberam substâncias tóxicas a esses parasitos. Resultado de experimentos em condições de cultivo protegido e em campo demonstram a eficácia comparada ou superior do controle biológico em relação ao químico. O efeito do controle biológico é um pouco mais lento. Nesse caso fazem-se reaplicações com o objetivo de aumentar a colonização dos micro-organismos no solo e, consequentemente, a eficiência de controle. Aliada ao fato de não ser tóxico, nem ao ambiente, muito menos à saúde humana, há a vantagem do preço. Atualmente, o tratamento do solo com os bionematicidas disponíveis no mercado apresentam-se 17 a 40% mais baratos do que os químicos tradicionais.

Agro Olhar – Em agosto tivemos Cuiabá sediou o Congresso Brasileiro de Nematologia, e pesquisadores do mundo todo destacaram pesquisas neste campo. Qual sua avaliação sobre a efetividade destas pesquisas e a condução delas, como no caso da descoberta de que alguns nematóides podem controlar ou mesmo acabar com pragas como a Helicoverpa armigera?

Ricardo Moreira de Sousa – O 31º Congresso Brasileiro de Nematologia, promovido pela Sociedade Brasileira de Nematologia e realizado em conjunto pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Centro Universitário de Várzea Grande (Univag) e Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT), obteve bons resultados na amostragem de pesquisas que vem sendo conduzida nesta área. Uma das descobertas é que os nematóides podem ser uma solução complementar para o combate a alguns insetos praga, entre eles a lagarta Helicoverpa armigera. Como salientado anteriormente o controle biológico mostrou que algumas espécies dos chamados nematoides entomopatogênicos possuem uma associação mutualística com bactérias que resulta na eliminação de insetos parasitas, como a Helicoverpa, grande vilã atual de lavouras como milho e soja. O controle biológico associado a outras ferramentas de controle e manejo resultam em combate efetivo de pragas de solo e de insetos pragas da parte aérea que atravessam parte do seu ciclo biológico no solo.

Agro Olhar – Em Mato Grosso a soja é a principal lavoura, e economicamente é o ‘fiel da balança’, sendo o principal ‘meio de sobrevivência’ de grandes produtores rurais. Fale sobre pesquisas voltadas para esta importante cultura.

Ricardo Moreira de Sousa – Um trabalho realizado por pesquisadores identificou que em países com clima tropical e subtropical os nematóides encontram condições como umidade e temperaturas ideais para reprodução e alimentação. Tais fatores são agravantes no controle destes patógenos, os quais após terem se estabelecido em uma área, são de erradicação muito difícil. No Brasil, as espécies que causam os maiores danos às grandes culturas como soja, algodão, cana-de-açúcar e milho são Meloidogyne javanica, Meloidogyne incognita, Heterodera glycines, Pratylenchus brachyurus e Rotylenchulus reniformis. Obri gatoriamente, o controle de nematóides em culturas extensivas, que possibilitem a redução populacional para tornar viável o cultivo de determinadas culturas, deve ser planejado e sistematizado de modo a integrar vários métodos e apresentar baixo custo. De um modo geral, são considerados os princípios fitopatológicos da exclusão (evitar a infestação de áreas indenes por espécies ou novas raças, na propriedade ou numa região geográfica maior, ou seja, evitar a introdução e a disseminação); Erradicação (rotação de culturas com espécies de verão e de inverno não hospedeiras e/ou antagonistas, objetivando a redução da densidade populacional do nematóide); Regulação (modificação do ambiente e nutrição das plantas); Imunização (utilização de cultivares resistentes a determinadas espécies ou raças). Aqui, mais uma vez, a rotação de culturas e o controle biológico, aliado a outros métodos, mostra-se como saída eficaz para o controle de pragas que afetam lavouras como algodão e soja.

Agro Olhar – Você citou que as perdas provocadas pelas nematóides são co9ntados nas cifras dos bilhões. Existem números que ilustrem isto?

Ricardo Moreira de Sousa – Estimativas conservadoras feitas por respeitados órgãos como o United States Department of Agriculture (USDA) – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos mostram que em 2012 todos os países produtores do mundo amargaram prejuízo acima de US$ 120 bilhões. Não é preciso explicar que isto significa muito dinheiro. E só este dado por si já justifica uma atenção maior por parte do governo e o conseqüente investimentos em laboratórios e pesquisas realizadas em centros acadêmicos e centros de pesquisas. Hoje temos uma defasagem muito grande, todos os centros de pesquisa mantidos pelo poder público carecem de recursos, de mais investimentos. Para diminuir perdas, as grandes empresas – multinacionais como Basf, Bunge e Gargill tem criado seus próprios centros. Aqui em mato grosso mesmo a Basf criou sem Centro de pesquisas Avançados em Lucas do Rio Verde, e a Dow AgroSciences anunciou que vai investir mais de US$ 100 milhões centros de pesquisas no Brasil, sendo que um deles será construído em Sorriso.
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