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Sábado, 26 de setembro de 2020

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O enorme apetite do dragão

Autor: Euclides Ribeiro

14 Ago 2020 - 08:00

Vem da cidade de Carlinda, norte de Mato Grosso, um exemplo do cenário de dominação do poderio chinês no agronegócio brasileiro. Um grande canteiro de obras se destaca na paisagem, de longe a maior construção que a cidade de 10 mil habitantes já abrigou. "Aqui vamos construir uma nova história", diz uma placa da COFCO Internacional, responsável pela obra. No local funcionará mais um armazém com capacidade para 65 mil toneladas de soja, um dos muitos que a empresa chinesa possui no estado, maior produtor brasileiro de grãos.

No total, a COFCO tem 19 depósitos similares no país, com capacidade para processar 1,4 milhão de toneladas por ano. A empresa opera no Brasil desde que foi inaugurada na China, em 2014, e é uma das principais - dentre muitas - chinesas que se estabeleceram no setor do agronegócio brasileiro nos últimos anos.

O grupo Dakang, originário da província de Hunan, é outro que se consolidou por aqui. Ele detém 57% da Fiagril e atua nas áreas de fertilizantes, insumos, produção de grãos e de biodiesel - ou seja, no ciclo completo da soja e outros produtos. Já a chinesa Chemchina adquiriu a produtora de sementes Syngenta, com uma unidade em Lucas do Rio Verde (MT). Há ainda projetos como a construção de uma fábrica de drones para agricultura em Cuiabá, pela empresa Zhurai, e de um centro de pesquisas tecnológicas voltado à agricultura em Sinop (MT), pelo Grupo Sino.

Portanto, é só percorrer os estados vocacionados para a agricultura no Brasil que pipocam fachadas/slogans com caracteres em mandarim. Uma realidade que demonstra o tamanho do apetite dos investidores chineses para o agronegócio e que vai “pintando” gradualmente o mundo todo de vermelho.

 Por quase dois séculos, os fluxos do comércio agrícola mundial estiveram nas mãos de quatro gigantes da produção e processamento de alimentos – Archer-Daniels-Midland (ADM), Bunge, Cargill e Louis Dreyfus, também conhecidas em conjunto como ABCDs. No decorrer das décadas, as gigantes do agronegócio construíram seus impérios centenários assumindo uma posição hegemônica na propriedade de transportadoras, silos, portos e relacionamento diversificado com produtores agrícolas.

O reinado da sigla ABCD se viu desafiado pela filha novata de uma velha senhora, que agora coloca seu forcado para trabalhar mundo afora: a chinesa COFCO Internacional foi criada como desdobramento para o comércio exterior da gigante estatal COFCO, conglomerado de processamento de alimentos.

Com investimentos diretos hoje em 35 países, a jovem trading agrícola, mesmo completando apenas seis anos de existência, está caminhando para se tornar líder mundial na cadeia de abastecimento de grãos, oleaginosas e açúcar. Em poucos anos, ela passou a competir no Brasil de igual para igual com as ABCDs e já se posiciona como a quarta maior do país.

Isso tudo só tende a somar o que chamamos de “efeito China”. O efeito China afeta a bolsa de valores. O efeito China acelera ou desacelera a economia global. O efeito China aprecia ou deprecia o câmbio. O efeito China eleva ou derruba os preços das commodities. O efeito China sustenta o crescimento do Brasil, ou então atravanca o progresso. De tão naturalizado, o efeito China parece um fenômeno natural, tipo um furacão, um dilúvio.

Mas a verdade é que ele tem causas econômicas e sociais bem definidas. O efeito China tem a ver tanto com as causas provenientes das transformações da China quanto com as especificidades dos governos em que os efeitos incidem. Quanto mais espaço esses investidores internacionais encontram para crescer maiores ficam os tentáculos financeiros daquele país. E o Brasil está como um cordeirinho rumando inocente para o abate.

Nesse cenário, os agricultores poderiam perguntar: qual é a diferença para nós? A verdade é que ver esse mercado se afunilar a cada dia coloca o homem do campo cada vez mais refém de um sistema que está orquestrado para oferecer pouca margem de negociação para quem está na ponta da cadeia. Pois é inegável o poder político que estas empresas representam, e sua capacidade de alterar normas fitossanitárias e de vigilância sanitária, leis que regem o agronegócio, gastos com infraestrutura, lei trabalhistas, de uso do solo, e assim por diante.

E cada vez mais os chineses têm interesse em controlar todo o processo de produção dos grãos, do fornecimento das sementes ao embarque dos produtos. Mais concentração, sob esse ponto de vista, significa mais poder para as tradings do agronegócio. Um bom exemplo de como elas operam está no fato de que mobilizam uma artilharia pesada junto aos formadores de opinião para tentar incutir a ideia de que a recuperação judicial do produtor rural pessoa física vai destruir o crédito agrícola. Como pano de fundo está o fato de que essas mesmas tradings vêm perdendo sucessivos processos nas instâncias judiciais relativos ao tema.

A recuperação judicial é uma importante ferramenta jurídica que permite promover a reestruturação das empresas, e uma forma eficaz de evitar a falência que na maioria das vezes foi causada por condições fora do controle do produtor, como pragas (a nuvem de gafanhotos não chegou no Brasil por um triz!) e também a crise por conta da pandemia, são dois fenômenos recentes. Antes desse instrumento legal a alternativa do produtor era simplesmente vender a própria terra para quitar suas dívidas.

Mas, independente da bandeira do país que opere as commodities da agricultura brasileira, o fato é que o nosso produtor está cada vez mais acuado e atrelado a um sistema onde poucos dominam. Enquanto historicamente esses países seguem negociando, o Brasil segue cooperando; ou seja, se aguardarmos passivamente a dinâmica do mercado, fatalmente seremos engolidos.



Euclides Ribeiro, Fundador da Universidade de Recuperação Judicial e ERS Advogados de Recuperação de Empresas e Empresários Rurais.
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